Carolina: retrato do Brasil – e do brasileiro

O texto de hoje do blog é aqueles difíceis de planejar. Como iniciar, qual o título, como abordar os pontos sensíveis…tarefa complicada.

Hoje aqui no blog vamos conhecer um pouco mais de uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira recente. Ela teve uma origem difícil, onde passou fome e diversas dificuldades, mas conseguiu dar a volta por cima e lançar uma obra com mais de cem mil cópias vendidas – isso na década de 1960! Seu livro principal é autobiográfico, e ilustra com detalhes uma realidade cruel de uma época recente da nossa história.

Pronto. Se terminasse aqui a introdução, seria o ideal. Seria justo com a autora. Mas infelizmente é impossível apresentar a história de Carolina Maria de Jesus apenas com essas palavras. Se você nunca ouviu falar desse nome no colégio ou na faculdade, provavelmente tem relação com o fato de a literatura nacional (e não só ela) não aceitar muito bem uma autora negra, pobre e mulher.

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Carolina nasceu em Sacramento (MG), em 1914, e se mudou para São Paulo em 1947, onde depois foi morar na favela do Canindé. Ela trabalhava como catadora de lixo – mas seu verdadeiro talento era para a escrita. Em cadernos encontrados no meio do lixo ela escrevia diários, poemas, romances e outros relatos.

Em 1958, o jornalista Audálio Dantas estava na favela para fazer uma reportagem para um jornal da cidade quando descobriu o talento de Carolina, após ser convidado por ela para conferir os seus escritos. Ele a ajudou a selecionar alguns trechos de seu diário para publicação em jornais e revistas. Posteriormente, em 1960, o diário foi transformado  em seu primeiro e principal livro: Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada.

A obra é importante por diversos fatores. Primeiro, por não ser ficção. Todas os trechos narrados tinham o peso de terem acontecido com a autora. Segundo, por trazer um relato precioso da vida dos moradores das primeiras favelas de São Paulo. Terceiro, por trazer voz a essa camada excluída da sociedade – mais ainda naquela época do que agora. Quarto, por tratar de temas como desigualdade social, problemas políticos e a invisibilidade das classes desfavorecidas.

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Seu primeiro livro foi um sucesso, vendendo mais de 100 mil cópias, traduzido para 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Novamente, se o texto acabasse agora, seria ideal. Seria um final feliz, uma história de superação. Mas claro que não posso terminar por aqui. Afinal, Carolina era mulher, negra e favelada, vivendo em uma sociedade conservadora e batalhando seu espaço em um meio extremamente restritivo para quem não fosse da elite.

Ela seguiu carreira com mais quatro livros e um álbum musical interpretado por ela, mas que venderam muito pouco. O motivo é que a curiosidade que tomou conta de muita gente da elite do país após a publicação da primeira obra não durou muito. Curiosidade em saber como uma favelada escreveu um livro. Essa curiosidade se transformou em desconfiança, onde Audálio foi acusado de ele mesmo ser o autor da obra.

Como não poderia deixar de ser, Carolina então foi fadada ao esquecimento até sua morte, em 1977. Pouco a pouco, o Brasil esqueceu da sua nova autora e suas obras foram desaparecendo –  até parecer que a literatura nacional nunca ouviu falar dela.

 

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Apesar de todos os defeitos da época em que vivemos, uma das vantagens da passagem das gerações é que podemos eventualmente corrigir nossos erros como sociedade – e como ser humano. Ou pelo menos tentar. Nas últimas décadas o trabalho de Carolina vem sendo revisitado e difundido, primeiramente em trabalhos acadêmicos, mas depois em publicações voltada a todos os públicos.

Uma dessas obras é a História em Quadrinhos Carolina, publicada pela editora Veneta em 2016, de autoria de Sirlene BarbosaJoão Pinheiro – cuja arte ilustra este post. A obra conta a vida da autora, de antes da publicação de sua primeira obra até a sua morte. A HQ está concorrendo no prêmio HQMIX na categoria Novo Talento – Roteirista. Espere uma resenha completa da obra nas próximas semanas aqui no blog.

Para quem tem vontade de aprender um pouquinho mais sobre essa importante autora, fica o link para um vídeo do canal Futura, feito em 2015 em comemoração do centenário de Carolina:

Também fica o link da biografia da autora, onde tiramos muitas informações para este post.

 

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