Resenha: Ghost in the Shell

De todos os mangás que conseguiram chegar com sucesso no ocidente, essa obra de Masamune Shirow foi uma das mais influentes. Muito disso graças à adaptação para um longa animado, que fez muita gente pensar sobre conceitos como “alma” e “vida” no meio da década de 90.

Esse ano ainda tivemos o lançamento de uma adaptação americana da obra, estrelando Scarlett Johansson. Mas esse post não é sobre este filme, e sim sobre o mangá lançado recentemente no Brasil para se aproveitar da nova onda trazida por Hollywood – e vamos falar um pouquinho da antiga animação também.

Sinopse


Influenciado por obras “cyberpunk” do final dos anos 1980 como Akira e por filmes como Blade Runner – O Caçador de Androides, o cenário escolhido por Shirow Masamune  para The Ghost in the Shell foi o futuro distópico de 2029, onde a alta tecnologia se mistura a uma sociedade decadente e desigual.

É nesse mundo à beira do colapso que a Major Motoko Kusanagi encabeça a Seção 9 da Segurança Pública japonesa. Motoko é uma ciborgue altamente treinada incumbida de desmantelar uma série de crimes cibernéticos realizados por um hacker conhecido como o Mestre dos Fantoches.

Em meio à caça ao criminoso virtual, Shirow Masamune insere na trama questionamentos existencialistas, ponderando até mesmo se alguém provido meramente de Inteligência Artificial é, de fato, um ser vivo. E foi exatamente essa mistura de ficção científica, ação e temas filosóficos que fizeram do mangá The Ghost in the Shell uma leitura obrigatória.

A edição


 

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A editora JBC lançou no final do ano passado o volume completo da obra aqui no brasil. O detalhe de ser um volume único é que a edição se torna um calhamaço de 352 páginas. Mas de maneira nenhuma isso é algo ruim.

Além de ficar mais bonita na estante, o fato é que a JBC utilizou materiais de ótima qualidade para evitar uma possível fragilidade. O papel é o chamado Lux Cream – que possui boa qualidade e um tom mais amarelado, quase “creme”. A obra conta também com uma sobrecapa (assim como a edição original). Não é algo que eu seja fã porque é fácil de rasgar e atrapalha na hora de pegar para ler, mas ponto para eles em manter o mesmo formato como foi publicado no Japão e em outros países.

Entrando em uma polêmica, houve censura na edição. Um quadro foi modificado e duas páginas foram retiradas, assim como na edição americana. Essa passagem retrata de forma explícita uma cena lésbica da protagonista com mais duas personagens. Há informações de que foi o próprio autor que pediu para retirar. De qualquer maneira, a cena é facilmente encontrada na internet para quem ficou curioso.

A edição conta também com as notas do autor em quase todas as suas páginas. Elas são bem interessantes e ajudam a explicar o que você está lendo. Mas como vamos falar mais pra frente, também ajudam a deixar o conteúdo maçante.

Os personagens


Ghost in the é a Major Motoko Kusanagi. Não me entenda mal, há outros personagens interessantes na história, mas ela é o ponto central. Ela é a base em que a trama gira, em que os outros personagens de desenvolvem. E ela está um pouco diferente aqui do que na animação de 1995. Um pouco não, bastante.

Pode não parecer, mas Ghost in the Shell é um mangá com bastante cenas de humor – e quase todas elas envolvem a personagem principal. É algo bem diferente do tom da animação, que é muito mais sério e reflexivo. Confesso que no começo é um pouco estranho, mas logo se acostuma.

E não estou falando que não tenha esses momentos de reflexão e tensão no mangá – tem sim. Aliás, ele até é mais violento em certos pontos. A questão é que aqui a Major sabe ser séria mas sabe fazer brincadeiras e se divertir com as situações. Ela está mais…humana.

Outro personagem muito interessante é o chefe da Seção 9, o Coronel Daisuke Aramaki, popular “macaco velho” (ele é desenhado com uma cara muito parecida com um macaco). Ele é talvez o personagem mais inteligente de toda a obra, sabendo lidar com assuntos políticos e estrangeiros, além de manipular a situação interna do Japão como ninguém. A rapidez com que descobre os mistérios de cada caso retratado e como explica eles é impressionante. Sua relação com a Major é engraçada, pois apesar de existir um respeito mútuo, ela muitas vezes faz pouco caso do seu superior. Já a relação com os outros membros da Seção 9 é parecida como a cultura japonesa trata os superiores e mais velhos – sempre com muito respeito.

Já os demais membros da equipe da Major são coadjuvantes interessantes, apesar de pouco desenvolvidos. Batou é o que tem mais destaque, inclusive no final, e possui os melhores diálogos e interações. Ele é quase uma versão masculina da protagonista, sendo extremamente competente no seu trabalho e tendo o respeito dos demais.

 

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O enredo


Deixando de lado o roteiro em si e pensando mais em como ele é contado, há alguns aspectos que me agradaram e outros que acredito que prejudicam a leitura. Se eu puder resumir bem, diria que Ghost in the Shell é uma obra extremamente complexa contada de forma simples.

Digo isso porque a quantidade de informação que o autor coloca é maçante. Junto com as notas de rodapé então… Ele não pega leve na construção do seu universo ciberpunk, e é bom você saber disso antes de ler. Se você adora ficção científica hardcore mesmo e tem interesse em reflexões de como uma pele artificial seria construída ou como fungos poderiam afetar peças de ciborgues, você vai amar. Não estou brincando, essas são apenas dois dos mais diversos tópicos que o autor entra em suas mais de 300 páginas. Quer mais? Que tal algumas aulas de química sobre a composição de ossos artificiais que possibilitariam ciborgues saltarem grandes alturas sem comprometer suas partes naturais?

Além dessa parte mais…científica, o autor traz alguns comentários sobre a sociedade do período retratado, sobre relações exteriores com países fictícios, sobre qual a melhor maneira de invadir um galpão cheio de inimigos, sobre como limpar armas. Enfim, é muita coisa legal (e outras que não entendi nada), mas que transforam Ghost in the Shell em um mangá extremamente carregado de informações.

Para facilitar, o enredo em si não é complicado de se entender. Primeiro porque ele é dividido em 11 capítulos que são como episódios de uma série. Praticamente cada um é um caso diferente para a Seção 9 dar conta. O antagonista dos primeiros retorna nos últimos para fechar a história.

Cada caso é bem simples. Somos apresentados ao problema, o autor nos inunda de informações, geralmente o Coronel ou a Kusanagi descobre os culpados de uma maneira rápida e lógica e vemos a Seção 9 agir para resolver o problema. Fim. Como falei, contado de forma simples.

 

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O legal mesmo são os temas trabalhados. Assuntos como tráfico de pessoas, uso de programas sociais para fins escusos, uma possível revolução das máquinas, corrupção governamental são apenas alguns dos que aparecem nas páginas. Por fim, há um assunto trabalhado mais do que todos. Podemos dizer que ele é o centro de Ghost in the Shell. É a questão da nossa essência – nossa alma. O que nos faz seres vivos.

É disso que os últimos capítulos e o antagonista final tratam. E também é aqui que todas aquelas referências filosóficas que foram tão importantes no longa de 1995 aparecem com força total.

Sério, nos últimos capítulos o autor meio que enlouquece (de uma boa maneira) e parece que escreve tudo que sempre quis. Se prepare pra ver ciência misturada com religião misturada com sociologia, tudo isso utilizado para tentar explicar sobre a nossa alma, em conjunto com desenhos mais abstratos.

Assim, apesar de ter relido algumas muitas vezes e mesmo assim não ter entendido muita coisa, eu gostei – bastante. Mas eu gosto dessas viagens dos autores. Acho melhor que um final certinho e preguiçoso. Se você tem um gosto parecido com o meu, vai fundo. Já se você não curte não entender tudo o que está escrito…bom, sempre dá pra buscar sobre as explicações na internet né…

(ou você pode ser bem mais inteligente do que eu e pegar tudo de primeira)

Vale a pena?


Resposta curta? Vale. É uma obra um pouco mais antiga e absolutamente influente na ficção científica moderna, foi publicada em um volume único caprichado, o papel é de qualidade e o enredo é bom e divertido.

Se você ainda não viu o longa animado, vale a pena pegar para ver depois de ler. Ele não adapta todos os capítulos, apenas a trama sobre o Mestre dos Fantoches (que é a mais importante), e coloca um ritmo totalmente diferente, mais sério. É como se fosse outra visão sobre o mesmo tema e personagens. Você precisa ver até para poder afirmar se gosta mais do anime ou do mangá.

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Falando em anime, foi lançada uma série baseada na obra, que se passa como se fosse em outra linha do tempo, mas utiliza os mesmos personagens. Confesso que ainda não vi, mas pretendo dar uma conferida na sequência, pois ainda não estou pronto para abandonar esses personagens e universo.

Já sobre o filme de Hollywood lançado esse ano…bom, veja por sua conta e risco. Apenas não leve muito a sério, lembre que é uma adaptação livre.

Ficamos no aguardo da JBC lançar as duas continuações do mangá. Se você se interessou pela obra, ela está disponível na Gibiteria.

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