Entrevista: Marcel Ibaldo, vencedor do Troféu HQMIX 2017

No dia primeiro de setembro tivemos a divulgação dos vencedores do 29º Troféu HQMIX, considerado o “Oscar dos Quadrinhos Nacionais”. Antes disso já tínhamos feito um post aqui no blog com os indicados a cada categoria. Nele, deixávamos clara a nossa torcida para o Marcel Ibaldo e o Max Andrade, que estavam concorrendo na categoria Publicação Independente Edição Única com a obra The Hype.

Não só pela qualidade do material (tinha muita coisa boa concorrendo), mas por já conhecermos o Marcel de outras temporadas da vida. Mais recentemente, ele participou conosco da ComicCON de Canoas, autografando a The Hype no nosso estande. Lá também lançamos outro projeto em conjunto – marca páginas ilustrados por tirinhas de um projeto do quadrinhista com a sua filha, que distribuímos para nossos clientes que passaram pela feira.

E para a nossa (pouca) surpresa e (muita) felicidade, o Marcel e o Max ganharam o prêmio! O primeiro troféu HQMIX da dupla, que coroa uma parceria que já vinha trazendo obras de qualidade crescente nos últimos anos. Para saber mais sobre a obra premiada, fizemos um post sobre ela e também um trabalho anterior da dupla:

“The Hype traz a história de Mauro, um professor de cursinho que quando criança tinha o sonho de ser um herói. Um dos pilares da história é a música, e como ela nos leva a emoções, e em poucos segundos podemos viajar no tempo e reviver lembranças do nosso passado” (clica aí para ler mais!)

Enfim, depois da merecida ressaca após a premiação, roubamos um pouco do tempo do artista para pegar uma entrevista sobre tudo o que aconteceu e também sobre o seu projeto de tiras. Confere aí:

Sobre o prêmio:


 

Troféu HQMIX 2017 (1)
Da esquerda para a direita: Max Andrade, Marcel Ibaldo e entregando o troféu o apresentador Serginho Groisman

Qual a sensação após ganhar o HQMIX?

É algo que reafirma que estamos no caminho certo e em processo de evolução na nossa arte, e que temos o compromisso de elevar o nível de qualidade nos próximos trabalhos. Algo que é nosso dever enquanto quadrinhistas.

Conte um pouco sobre de onde surgiu a ideia de fazer o The Hype com o Max Andrade:

The Hype é um dentre cinco trabalhos concluídos da nossa parceria que já dura cinco anos, então a partir do convite dele pra eu criar o roteiro pra uma nova HQ eu já tinha uma visão bem clara da linha a seguir. Dessa vez, apesar de seguir uma linha shonen ( mangá direcionado para o público jovem masculino), é perceptível uma abordagem temática de evolução em relação a trabalhos anteriores realizados por nós e o resultado positivo com certeza é reflexo de uma parceria que vem sendo aprimorada a cada novo projeto. 

De onde surgiu a ideia de utilizar a música como conceito base da trama e qual a relação de vocês com ela?

Semelhante ao protagonista Mauro da The Hype eu vivo com um fone de ouvido pendurado no pescoço há mais de uma década, e a música enquanto trilha sonora do cotidiano é algo que torna ela marcante pra mim quando reouço algum disco ou faixa e ela me transporta em lembranças pra outra época.

É algo que considero muito poderoso na arte e essa HQ pareceu um momento ideal pra explorar essa ideia. No entanto não é pra ser restrito a música. Seja qual for a forma de arte que possa ter esse efeito no leitor, a The Hype permite que a música seja substituída na hora de dialogar com o público.

Além disso, ambos somos músicos e eu atuo profissionalmente nessa área há década e meia. No fim das contas, mesmo quando a HQ em produção não tem relação com música, acabamos conversando sobre isso sempre.

Conta alguma curiosidade sobre o roteiro/personagens/conceitos que o leitor pode não ter pego de primeira:

A The Hype é cheia de referências a experiências pessoais de ambos, além de easter eggs que eu opto por não contar(😢). Acredito que a principal curiosidade sobre o roteiro da HQ é que o insight inicial (e todo o conceito) vieram em uma ocasião quando eu chegava em casa e meu fone de ouvido começou a dar choque. No mesmo instante imaginei o que seria o esqueleto do roteiro e repassei pra ele, que achou interessante o suficiente pra a gente levar o projeto adiante a partir de então.

Além disso, uma curiosidade interessante relacionada à The Hype é que eu não conhecia o Max pessoalmente, e isso em uma parceria que já existe há cinco anos. A colaboração teve início pra participar de um concurso de HQs no qual a gente perdeu, e depois disso realizamos outros trabalhos sempre tendo a internet na forma de ponte, e cada um tendo sido premiado individualmente.

Enfim em 2017 a conquista do Troféu HQMIX meio que encerra um ciclo. Inclusive pela primeira vez os leitores puderam obter o autógrafo de ambos nas nossas revistas no evento Nerd Nation que ocorreu no dia anterior à premiação do HQMIX em São Paulo.

 Sobre a rotina de produção do artista:


 

The Hype - Catarse (5)


Fale um pouco do processo criativo da obra e como funciona a parceria de vocês:

O Max mora em Brasília e eu no Rio Grande do Sul, portanto a internet é ferramenta básica e essencial pro diálogo e construção das histórias. Por isso chats, skype e imagens digitalizadas foram as únicas formas de comunicação. Até agora cada HQ teve o processo de produção adaptado gradualmente até chegar na The Hype, que foi a de processo de criação mais orgânico.

Nós geralmente discutimos o conceito inicial em conjunto, pra depois eu ficar responsável mais pelo roteiro e ele mais pela arte, mas isso não é restritivo – e por nós dois roteirizarmos e desenharmos em outros projetos, ambos contribuem em todas as etapas de algum modo. Depois o Max realiza a edição final e eu a revisão gramatical da edição, sempre mantendo um diálogo constante pra minimizar falhas.

Interessante das obras de vocês é que os personagens tem traços bem brasileiros, tanto na cor da pele/cabelo quanto nos cenários em que eles habitam. Fale um pouco mais sobre isso:

Quando iniciei com fanzines lia muitas obras brasileiras que além da influência oriunda de HQs estrangeiras possuíam personagens refletindo os estereótipos dos personagens de outros países, mas afirmando ser brasileiros. Acabou sendo algo em que eu sempre pensei bastante ao criar HQs.

Logo no início da parceria com o Max conversamos a respeito disso e é um aspecto importante pra nós que seja transmitido um aspecto maior de realidade nos personagens e contexto em que se passa a HQ. Se a história for se passar no Brasil a ideia é refletir a realidade a nossa volta em todos os aspectos. Isso sem chegar ao ponto de parecer bairrista ou nos impedir de explorar outros elementos quando eventualmente for adequado, mas certamente é algo divertido de trabalhar e adiciona umas camadas a mais pra história. 

O que o prêmio representa para o seu futuro nos quadrinhos?

Muitas possibilidades surgem na frente e a questão é saber aproveitar essas portas que vão se abrindo. Eu já tinha projetos definidos pros próximos meses, mas a partir da exposição maior depois do prêmio e contatos realizados com pessoal da área vou precisar repensar os próximos passos. É tudo ainda mais promissor a partir de agora.

Sobre o seu novo projeto em conjunto com a sua filha:


 

Tê Rex 11 - te-rexhq.blogspot.com


Conta um pouco do seu projeto atual de tirinhas para a internet:

A série se chama Tê Rex (pode ser conferida no nosso blog) e conta em tiras semanais o cotidiano nerd de uma tiranossaura que tem no colecionismo, cinema e na literatura alguns dos seus maiores interesses.

É algo que já estava em desenvolvimento há alguns meses, com roteiros meus e desenho da minha filha de dez anos, Marcelli, e que diante do convite da Gibiteria Diagonal pra publicar tiras em marca-páginas da loja acabou sendo a melhor alternativa por já ter o conceito bem desenvolvido e o tema permitir proximidade com o público da Gibiteria.

Há tempos eu queria voltar a produzir tiras seriadas, que é algo que eu curto muito ler e produzir, e essa parceria com a Marcelli tem funcionado tão bem que acumulamos em curto período de tempo uma boa quantidade de tiras que vão sendo publicadas simultaneamente no blog, página do facebook e instagram da Tê Rex.

De onde vem a inspiração para o roteiro?

Na maior parte os roteiros são inspirados por experiências pessoais minhas com cultura pop e tudo que se refere a nerdismo, além de vivências da Marcelli permitindo uma abordagem verossímil em se tratando do cotidiano de uma criança nos dias de hoje (ainda que a protagonista seja pré-histórica).

Com isso, nas tiras abordamos desde quadrinhos, cinema e música, até preconceito, bullying e demais aspectos da idade, sempre com humor e buscando formas de enxergar um viés otimista em meio aos conflitos enfrentados pela Tê, que só tem ambientação na Pré-História por causa da espécie dela, porque nas situações e reações ela é uma legítima nerd dos dias de hoje.

Qual é a participação da sua filha nele e como é trabalhar junto com ela?

Tanto nesse quanto em outros projetos utilizo muito o que observo da realidade à minha volta como base das histórias e construção dos personagens, então na Tê Rex o que envolve o cotidiano da Marcelli é fonte essencial temática e por isso os roteiros sempre passam pela ótica pessoal dela e tento equilibrar isso até a versão final.

No processo de criação ela é responsável principalmente pelos desenhos, e por ela ter apenas dez anos é perceptível uma evolução muito rápida do traço na arte em virtude da experiência que vem sendo adquirida ao longo da série.

Além disso, conforme ela mesma comenta, a forma de encarar os desafios apresentada pela protagonista inspira e encoraja ela própria a lidar com dificuldades cotidianas, e espero que possa de alguma forma ter esse efeito em outras pessoas.

Tudo isso torna esse um dos projetos mais pessoais dentre os que eu trabalhei, e que espero divirta o leitor tanto quanto me diverte ao criar cada nova tira.

 

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1 comentário

  1. Olá!!!
    Honestamente, não sei se todos os quadrinhistas possuem a mesma trajetória, porém como alguém que acompanhou boa parte do crescimento do Marcel Ibaldo, é muito emocionante perceber o quanto seu empenho e dedicação tem rendido frutos. Lembro ainda do vício em ficar desenhando, praticamente em tudo o que fosse ‘desenhável’, visto na infância e adolescência como um problema, mas que reflete não somente um hobbie, e sim a expressão maior de uma alma artística.
    Fico muito feliz ainda em notar que nossa influência, iniciada na leitura de hqs ainda crianças, despertou uma chama tão forte que faz do Marcel alguém realmente apaixonado pelo que faz.
    A Marcelli então, é uma grata surpresa…
    O olhar apurado dela para as situações do cotidiano gera uma singularidade maravilhosa. Afinal, quantas crianças tem real percepção da vida e conseguem expressar isso de forma inteligível?
    Espero, assim como todos vocês leitores, poder conhecer mais e mais produções dessa galera.
    Um abraço!

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