Resenha: Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro

Biografias nunca são fáceis de se adaptar para quadrinhos. Até porque elas já são difíceis de serem escritas como livros, pois é preciso transformar a vida de uma pessoa em uma narrativa coerente e interessante, sem a possibilidade de inventar eventos que não tenham acontecido. É uma material ao mesmo tempo limitado e extenso para se trabalhar.

Com quadrinhos, uma mídia onde a arte é importantíssima para a narrativa, ainda é preciso encontrar um estilo que case com a história que está sendo narrada. E é preciso lidar com (normalmente) uma limitação muito maior de espaço. Claro que 10 páginas de quadrinhos podem conter muito mais informações do que mil páginas de um livro, mas quando se está tentando criar uma linha do tempo e passar informações mais objetivas do que subjetivas, a coisa se aperta um pouco.

Digo isso porque é algo que sempre reflito quando vou ler uma história de não-ficção em quadrinhos. É muito mais recompensador chegar até as últimas páginas, ter aproveitado uma grande obra e ainda ter sido de certa maneira testemunha de um evento que aconteceu na vida real.

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Carolina é uma obra de não ficção, mas não é uma adaptação de um livro da autora que dá nome ao título. Ela funciona mais como uma biografia. No fim da obra tem algumas páginas com um ensaio sobre a vida e a obra da protagonista, além de uma reflexão sobre sua importância para a literatura brasileira. É algo que já comentei na resenha de Do Inferno: gosto muito quando os autores passam pra gente um pouco da pesquisa que fizeram. Pesquisa é o que separa bons autores e boas histórias de ótimos autores e ótimas histórias.

Dito isso, já escrevi um post aqui no blog falando mais especificamente sobre Carolina Maria de Jesus. Nesse texto pretendo falar sobre a adaptação em quadrinhos lançada em 2016 pela editora Veneta. O link do texto está aqui, e segue um trecho:

“Carolina nasceu em Sacramento (MG), em 1914, e se mudou para São Paulo em 1947, onde depois foi morar na favela do Canindé. Ela trabalhava como catadora de lixo – mas seu verdadeiro talento era para a escrita. Em cadernos encontrados no meio do lixo ela escrevia diários, poemas, romances e outros relatos.

Em 1958, o jornalista Audálio Dantas estava na favela para fazer uma reportagem para um jornal da cidade quando descobriu o talento de Carolina, após ser convidado por ela para conferir os seus escritos. Ele a ajudou a selecionar alguns trechos de seu diário para publicação em jornais e revistas. Posteriormente, em 1960, o diário foi transformado  em seu primeiro e principal livro: Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada.”

Pois bem. A HQ foi indicada no prêmio Jabuti e no Troféu HQMIX desse ano – e isso porque não apenas trata de um tema importante. É porque é boa mesmo. A arte é bonita, o roteiro prende a atenção, ambas combinam bem e você consegue perceber o cuidado dos autores com o tema.

 

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A escolha dos autores foi nos transportar para a vida da Carolina logo antes da publicação de seu primeiro livro, utilizando trechos de seu diário para realizar a contextualização. No meio deles, há passagens mais poéticas, que ajudam a ilustrar alguns momentos importantes sem quebrar o clima de realismo.

Quando realizamos a leitura muitas vezes tomamos um choque de realidade. Mesmo hoje, 57 anos depois da publicação, ainda não superamos muitas situações retratadas. A realidade de uma favela, a luta diária contra a fome, a violência e o preconceito são apenas alguns dos pontos tratados sem filtros.

Interessante que a obra desmistifica aquela ideia que temos da favela como um lugar de felicidade e alegria, onde todos os moradores se amam e se dão super bem. Pelo contrário, Carolina retrata uma realidade egoísta, onde a luta pela sobrevivência está acima de tudo.

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A força de vontade da protagonista, que nunca duvidou de seu potencial e de seu destino, é algo que fica marcado depois do final da leitura. O outro sentimento é a tristeza ver a sua jornada para o esquecimento depois da fama. Esse é um ponto muito importante do roteiro, e foi bem trabalhado. Ao longo da obra criamos uma empatia com a protagonista, e ver ela ser deixada de lado até o esquecimento é muito doloroso. Não são todas as obras que conseguem criar esse laço e gerar esse tipo de sentimento.

A arte é toda em preto em branco. O estilo é bem realista, tanto da protagonista e dos outros personagens quanto dos ambientes retratados. A casa da Carolina, as ruas as quais ela percorria, o lixão onde adultos e crianças buscavam restos de comida, depois a casa de alvenaria que ela comprou com o dinheiro do livro…são todos ambientes importantes e muito bem desenhados.

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É difícil ler Carolina e não se impactar com a trajetória de vida dessa importante e esquecida autora negra do nosso passado literário. Ao conhecer sua história entendemos um pouco do que ela passou e porque foi deixada de lado. Antes tarde do que nunca, que a sua história de vida tenha o devido reconhecimento  – e que a gente pare de tentar esconder a realidade das camadas mais desrespeitadas e desfavorecidas do país.

Para quem se interessou, a HQ se encontra disponível aqui na Gibiteria.

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