Resenha: A Infância do Brasil – Verdades Inconvenientes

 

“Uma HQ para refletir o presente a partir do nosso passado.” É o que está escrito no site oficial da obra. Esse é o conceito de “A Infância do Brasil, de José Aguiar – e não é uma leitura fácil. Quando terminamos as últimas páginas, além do sentimento de ter lido algo bom e bem escrito, fica uma tristeza. Ficamos esperando um final feliz, que compense pelos capítulos da obra, mas ele não vem. O que vem é uma dose maior ainda da realidade nua e crua na nossa cara.

Antes de falar da estrutura da HQ, a sinopse:

Em A Infância do Brasil, o premiado quadrinista José Aguiar  lança seu olhar sobre a História do Brasil não pela perspectiva dos grandes eventos, mas pela das pessoas comuns, pelo viés da infância. Nela o autor atravessa nossa história cheia de contradições, abusos, descaso, abandono, entre outras situações que insistem em não ficar para trás.  A Infância do Brasil é sobre refletir o presente a partir do nosso passado para, quem sabe, projetarmos um futuro melhor.”

A história é contada pela ótica das crianças, mas ela não é sobre as crianças. Por meio delas, as mais vulneráveis, conseguimos perceber o verdadeiro tema: como as injustiças da sociedade não desaparecem ao longo do tempo – apenas mudam a cada século.

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Para falar sobre isso, José Aguiar divide a obra em seis capítulos, cada um se passando em um século, indo do XVI até o mundo atual, no século XXI. Cada um tem um tema específico que ressona com o seu período histórico, como por exemplo a história de crianças negras, indígenas, moradores de rua e trabalhadores infantis.

Como comentei, logo no início já pegamos a vibe mais “crua” da história, e ficamos esperando uma melhora no clima das histórias – que nunca vem. O que contribui com isso é que no final de cada capítulo a última página nos transporta para o mundo atual, fazendo relação com a história que acabou de se passar. E o último capítulo, do século XXI, junta todas essas pequenas histórias de uma página em um enredo final. É uma estrutura bem criativa e muito bem aplicada na história. Muito legal o autor tomar essa liberdade narrativa.

Quando terminei de ler não conseguia para de pensar no quanto a gente não evoluiu na proteção dos vulneráveis na história do Brasil. Provavelmente até piorou. É interessante o quanto os Direitos Humanos voltaram ao debate nos últimos anos na sociedade, mas temos um caminho gigantesco pela frente pra corrigir mais de 500 anos de injustiças. É uma herança pesada, mas negá-la não vai ajudar a consertar nada.

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Falando da arte, como dá pra perceber pelas imagens deste post, ela é um pouco estilizada, não muito “realista”, mas logo no primeiro capítulo já se acostumamos e passamos a admirar. Existem cenas bem difíceis, como uma de parto logo no início, além de momentos com carga emocional bem pesada, e o autor consegue passar tudo isso de maneira satisfatória. Destaque para os rostos dos personagens, que ficaram muito bons, e para as cores utilizadas, que conseguem passar o clima pretendido em cada capítulo.

Um destaque mais que especial para as referências históricas que se encontram no fim do álbum, que contextualizam o momento histórico de cada capítulo. Muito interessante para quem gosta de história do Brasil ou que ficou interessado em saber um pouco mais sobre os temas tratados.

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Falar das crianças é algo complicado, porque mexe com o emocional de todo mundo, mas José Aguiar sabe tratar disso de maneira fantástica para contar sua história. É uma obra forte, que não foge de temas polêmicos e sensíveis, dessa maneira não é indicado para quem quer uma leitura leve.

Mas com certeza é indicado para todos que querem conhecer um pouco mais sobre nosso país e sobre o futuro que estamos construindo para nossas crianças. Mais que recomendado!

Quem ficou interessado, a obra completa está disponível na Gibiteria.

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