Resenha: Você é um babaca, Bernardo

SINOPSE: Bernardo luta a todo tempo para manter os impulsos aventurescos de sua cabeça em detrimento do seu corpo acomodado. Sem motivações ou ambições pessoais, nosso protagonista está perdido em seu dia a dia até conhecer uma garota, Gabriela.

Escrito por Alexandre Lourenço e lançado pela editora Mino, Você é um babaca, Bernardo é uma HQ que te convida a uma narrativa bela e inusitada.

Encantando o leitor desde a primeira página, Lourenço nos apresenta o dia a dia de Bernardo através de pequenos desenhos cobertos de detalhes para serem explorados.

Utilizando o vazio das páginas para compor os quadros, acompanhamos a rotina do protagonista a partir de nove frames que retratam dias diferentes, nos fazendo avançar o que parecem ser vários meses na mesma página. Quebrando uma lógica temporal, passam-se apenas alguns minutos em cada um desses dias quando prosseguimos para a página seguinte, de forma que conhecemos o passado e o presente de Bernardo ao mesmo tempo.

Não é um exagero dizer que Lourenço constrói os detalhes dos quadros com maestria, inserindo recursos visuais – como um novo computador, a troca de um quadro, a aquisição de uma bicicleta, a mudança de colegas de trabalho ou a perda de um cachorro – de forma bastante sutil e eficiente.

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E a maior parte da graça de ler Você é um babaca, Bernardo vem desses dois recursos: o tempo e os detalhes. À medida em que avançamos na história, sentimos o impulso de retornar algumas páginas em um esforço de retomar minúcias que havíamos perdido, ou que ganham um novo sentido apenas com o desenrolar da trama. Igualmente interessante é explorar os gostos do protagonista (e também do autor) inseridos de forma orgânica nos quadros (como a página que mostra Bernardo assistindo ao desenho Hora da Aventura).

Dando o tom do humor que acompanha a rotina do Bernardo por meio de suas expressões sempre tristes e da posição desanimada de seus ombros, mergulhamos no tédio de sua rotina enquanto acompanhamos o desprender de sua cabeça. Conforme o próprio Alexandre declarou em uma entrevista sobre a obra, a necessidade da cabeça separar-se do corpo ilustra o quanto nos forçamos a seguir os padrões da rotina, mesmo que nossas ideias e desejos estejam bem longe dali:

“Bernardo é uma história, basicamente, sobre rotina e eu queria falar disso, sobre as coisas que esse cara faz todos os dias, sobre a sua cabeça que vai passear enquanto ele trabalha e a necessidade de se separar do corpo pra conseguir lidar com o dia a dia.”

Mas o tom pacato do dia a dia de Bernardo logo é quebrado quando este apaixona-se por Gabriela, e é a partir daí que a estrutura dos quadros começa a variar. Também é interessante como o autor retrata a paixão do personagem, circundando-o com pequenos corações e fazendo-o flutuar nas situações do cotidiano, em uma imagem bastante fiel da leveza que a paixão confere às pequenas coisas do dia.

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Acompanhar os momentos em que Bernardo “se perde” ou não de sua cabeça diz muito sobre os desgastes – e até mesmo os medos – que o hábito nos inflinge.

* ALERTA DE SPOILERS, a partir daqui, o texto releva detalhes importantes sobre a história *

Ao longo da HQ, acompanhamos o corpo e a cabeça de Bernardo sendo guiado por desejos conflitantes, enquanto o primeiro tenta salvar o relacionamento que parece ter sido ameaçado pela ausência da cabeça.

Habilidoso em retratar a rotina do casal, Alexandre nunca nos revela todos os seus detalhes, omitindo a maior parte dos diálogos da trama, como se estivessemos longe demais para conseguir ouví-los e compreendê-los (o que pode ser facilmente deslocado para a maneira equivocada com a qual julgamos compreender a dinâmica de casais das quais não fazemos parte).

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E a breve retomada da história de Gabriela – retratada em quadros amarelos que contrastam com o branco de toda narrativa ao mesmo tempo que conferem às páginas um tom de lembrança – nos leva a compreender mais sobre ela e suas ações em relação ao casal. Em certo momento da trama, parecemos entender perfeitamente o porquê o Bernardo é (ou foi, naquele contexto) um babaca.

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E aqui, a pequena quantidade de diálogos na narrativa confere uma força muito maior ao título da HQ, pronunciada por Gabriela na discussão que resulta no término da relação.

Depois de um tempo, Bernardo acaba mudando de rotina. Demite-se do emprego, se muda para uma casa e começa a trabalhar no campo, vendendo flores na cidade. É interessante notar como, nessas páginas finais, não vemos a cabeça de Bernardo se separar em momento algum do corpo.

Se isso se deve à mudança de rotina, ao coração partido ou a ambos cabe ao leitor interpretar. Apesar de estar “inteiro” – pelo menos com as suas ideias e desejos – o tom melancólico não abandona os quadros finais, que, afinal, retratam um amor que ainda o acompanha.

 


Sobre a autora:
Roberta Mandelli é mestra em Design, trabalha como pesquisadora e designer freelancer e adora escrever poesias.

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