Resenha: Akira vol.01

Sinopse: O ano é 2019. Já se passaram 38 anos desde a eclosão da 3ª Guerra Mundial, iniciada com uma explosão atômica em 1982. O mundo foi devastado. Nas ruas de uma Neo Tokyo pós-apocalíptica, a gangue de jovens delinquentes liderada por Shotaro Kaneda sofre um acidente inexplicável. Tetsuo Shima, o melhor amigo de Kaneda, atropela uma criança de estranha fisionomia. Após o ocorrido, Tetsuo começa a sentir reações esquisitas que parecem ter despertado poderes jamais imaginados. Isso acaba atraindo a atenção de agentes secretos do Governo envolvidos em um projeto com experiências sobre poderes sobrenaturais.

Lançado pela primeira em vez no Japão no ano de 1982, o mangá escrito e ilustrado por Katsuhiro Otomo carrega em suas páginas o impacto que a Guerra Mundial e duas bombas atômicas deixaram no Japão.

O mangá de Otomo ganhou, em 2017, uma nova edição brasileira pela editora JBC. Dividido em seis belíssimos volumes, essa resenha irá focar apenas no primeiro deles.

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A história de Akira se passa em um futuro distópico após a eclosão da Guerra Mundial. Apresentando uma New Tokyo que, longe de retratar a ordem e organização na qual estamos acostumados a associar ao país, é justamente o retrato de uma sociedade doente e caótica.

Foi Akira uma das obras responsáveis por levar a produção japonesa para o ocidente, em 1988, sendo um dos primeiros mangás traduzidos para inglês. Assim como Blade Runner, o mangá de Otomo citou a estética de futuros trabalhos sobre cenários distópicos. Competentes em criar um universo novo, ambas as obras criam uma tensão entre o futuro e o passado, trabalhando com grandes construções e tecnologias futuristas ao mesmo tempo em que retratam cenários sujos, destroços e heranças sociais de um passado sofrido. Além disso, a influência de Akira nos quadrinhos japoneses e no gênero cyberpunk também merece ser citada.

É difícil não lembrar dos primeiros mangás de Dragon Ball e dos gadgets da Capsule Corporation ao ver as naves, motos e pílulas de Akira. Ou dos óculos utilizados pelos protagonistas em Digimon.

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Retratando uma sociedade extremamente machista – se reflexo da época que foi escrito, da sua origem cultural ou de um exercício projetivo distópico, difícil responder – Akira é um mangá tomado por personagens masculinos e agressões tanto físicas quanto psicológicas.

Ao longo das páginas, acompanhamos a saga de uma gangue de motociclistas delinquentes juvenis, e aqui podemos notar o desenvolvimento precoce característico de protagonismos do estilo mangá, ao retratar personagens que ainda frequentam a escola, por volta de seus 14 anos. Em um trabalho eficiente de ambientação, Katsuhiro Otomo retrata de forma dinâmica o contexto e as relações sociais da época.

O ambiente escolar que os meninos da gangue frequentam é hostil. Não existe nenhum tipo de ordem e nenhum tipo de respeito que não seja o imposto pela violência. É nítida a falta de perspectiva desses jovens em relação a um futuro dentro dos moldes nos quais a escola os apresenta.

O arco dramático da trama se passa entre o líder da gangue, Kaneda, e o seu amigo Tetsuo que, após sofrer um acidente de moto ocasionado por uma criança misteriosa que surge em sua frente, chama atenção do governo japonês e, sendo capturado por este, acaba por desenvolver habilidades paranormais.

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E se tem algo que o Otomo trabalha bem é no fascínio que esse universo – distópico e fantástico – exerce sobre o leitor, ao inserir elementos como: agentes do governo discutindo projetos milionários que influenciam o futuro do país; organizações paralelas que parecem ir contra essas ações; bizarras crianças paranormais que se parecem com velhos; pílulas e poderes misteriosos;  gangues de moto com máscaras de palhaços, etc. Todos elementos inseridos de forma orgânica e dinâmica na narrativa.
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Impressionante nos detalhes, o autor utiliza traços extremamentes expressivos. Emoções como surpresa, repulsa, tristeza e raiva são muito bem retratadas e ajudam o leitor a ser empático para com os personagens.

Além disso, Akira se torna ainda mais interessante ao possuir personagens multifacetados. O próprio Kaneda, que é o mais próximo de um protagonista que temos na história, consegue demonstrar extrema preocupação e raiva em situações que envolvem o bem-estar de seus amigos,  ao mesmo tempo em que não hesita em usar de violência com uma criança, ou tentar conquistar de maneira grosseira a única mulher que Otomo insere na narrativa.

Felizmente a Kei é uma personagem dotada de personalidade e força, desempenhando um papel visivelmente importante dentro da organização da qual participa, além de salvar Kaneda em diversos momentos. É importante mencionar que sua dinâmica com rapaz também evolui ao longo da narrativa, resultando nas cenas mais engraçadas e agradáveis de se acompanhar.

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O mangá de Otomo é eficiente em construir uma tensão que deixa @ leitor@ ansioso pelo desenrolar da história. Dito disso, esse primeiro volume torna-se um pouco confuso exatamente por oferecer muito mais perguntas do que respostas. Apesar de acabarmos torcendo por Kaneda, até o final deste volume não temos absoluta certeza de quem são os mocinhos e os vilões da história, e nem se estes papéis serão delimitados nas próximas edições. O papel que a organização a qual Kei pertence desempenha na trama também não é explicado nesse primeiro momento.

Ainda sobre a parte técnica de Akira, os quadros de ação – quase sempre em formato widescreen – merecem destaque não apenas pela beleza e pela quantidade de detalhes, mas também porque retratam os movimentos e acontecimentos de forma compreensível para o leitor. Explorando diversos ângulos de câmera, Otomo certamente não economiza esforços aos construir seus frames em prol de uma narrativa dinâmica super detalhista.

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Fazendo jus ao seu sucesso, Akira é uma obra que conquista o leitor tanto pela trama quanto pelo esmero artístico que Otomo confere ao executá-la, ambos de tirar o fôlego.


Sobre a autora:
Roberta Mandelli é mestra em Design, trabalha como pesquisadora e designer freelancer e adora escrever poesias.

 

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