Resenha: Estudante de Medicina

Sinopse: Dissecações de cadáveres, abcessos purulentos e discussões eletrizantes sobre nucleotídeos, cromossomos e linfonodos. Por cinco anos (entre 2006 e 2011), essa foi a rotina de Cynthia B, aluna da mais tradicional e concorrida faculdade de medicina do país, a da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A mesma que, entre tantos outros notáveis, formou Carlos Chagas, Oswaldo Cruz, Emílio Ribas e o cirurgião plástico das estrelas Ivo Pitanguy.

Convivendo com algumas das mentes mais destacadas mentes do Rio de Janeiro, que formariam no futuro a elite da classe médica do país, ela entra em uma rotina de festas, bebedeiras homéricas, sexo casual e dilemas existenciais. Todo esse cotidiano está registrado de forma franca e bem-humorada em Estudante de Medicina, seu primeiro álbum de história longa, livro que sai simultaneamente no Brasil e na França.

Lançada pela editora Veneta, Estudante de Medicina é uma HQ autobiográfica escrita e ilustrada por Cynthia Bonacossa.

Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cynthia nunca exerceu a profissão de médica, tendo construído uma carreira como cartunista e roteirista. Seu trabalho foi (e segue sendo) publicado em mídias consagradas, como a revista piauí, o jornal Folha de São Paulo e sites como o Komikaze. (Ah, para possíveis interessad@s, ela também tem um Tumblr).

Em Estudante de Medicina, o trabalho da Cynthia é brutalmente honesto. Nos entregando uma capa-quase-colorida-de-mais, o tom expressivo da HQ é evidenciado em cores e traços que poderiam muito bem ter sido feitos com as clássicas canetas marca texto, item indispensável para o dia-a-dia de quem vive mergulhado em livros e fazendo resumos.

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Já nas primeiras páginas da HQ temos uma metáfora com um abscesso purulento (acúmulo de pus que se forma embaixo da pele) que denuncia o tom do conteúdo que perpassa toda a história. Cynthia narra os dilemas emocionais de sua vida durante o curso de medicina de forma crua e sem filtros. Composta por diversas ações percebidas como pequenas – ou grandes – transgressões pela protagonista, a narrativa é cheia de detalhes verdadeiros, humanos e muitas vezes nojentos. Além de retratar as coisas como elas realmente são, os relatos acabam soando como pequenas confissões para o leitor.

“Nojento, ali… pro mundo ver! […] E agora a ferida pode cicatrizar e ela vai ficar bem.”

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Contando a história com um desenho cartunesco expressivo e carregado, Cynthia é daquelas autoras que transborda personalidade no traço.  Em alguns momentos, a autora utiliza alguns recursos gráficos tão destoantes que parece que as páginas gritam com nós. Como quando insere os personagens contemplando miniaturas de fotos reais, ou faz graça com um erro anatômico percebido em um quadro de Rembrandt.

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Ao pularmos de cena em cena, nota-se que não existe uma preocupação em preparar o terreno para introdução de novos assuntos ou de outros estilos de narrativa. Em certo momento da trama, a autora insere uma conversa da protagonista falando diretamente com @ leitor@ apenas para não repetir esse recurso até o fim da HQ.

Aliado à sinceridade, o tom de humor – quase tragicômico – que ela confere a estes cortes abruptos e às situações relatadas não faz destes um ponto fraco da narrativa. Se tem algo presente no trabalho de Cynthia – mesmo que pareça meio construído ao acaso, e eu aposto que não é – é um bom ritmo de narrativa. Como a própria autora declarou em entrevista para a Bravo!:

“Existem muito ilustradores maravilhosos que não conseguem fazer quadrinhos, ou fazem quadrinhos lindos mas desinteressantes. Acho que um bom quadrinista precisa ler muito, sim, mas precisa também assistir a muitos filmes, pois é uma narrativa visual. Existem muitos vídeos no Youtube sobre edição e cinema que gosto de assistir, pois me dão ideias para meus quadrinhos também. O desenho, na minha opinião, é uma das últimas partes. É tipo a fotografia do filme. Importante, mas sem uma boa história e ritmo, não vale grande coisa.”

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Como é possível ver nas imagens, Cynthia trabalha com páginas majoritariamente carregadas e bastante eficientes.

A história perpassa por questões típicas da época de faculdade, como a prática do trote, que aqui retrata com precisão o machismo e a imaturidade presentes na mesma, mesmo sem protagonizar a discussão.

Acompanhamos o desconforto da protagonista ao se deparar com colegas de opiniões mais conservadoras, ao mesmo tempo em que a temática sexual parece estar presente de forma explícita em todos os assuntos da universidade.

Churrascos e festas regados a álcool, drogas e tesão também compõe um retrato bastante fiel do período universitário. E vale destacar aqui que a intensidade das mesmas parece seguir o nível de cobrança que se tem em um curso como Medicina.

Sendo assim, é bastante normal que acompanhemos alguns dias de ressaca – também moral – de Cynthia. A culpa da protagonista se relaciona com a confusão de sentimentos da mesma,  ao tentar entender se o que sente é verdadeiramente amor e se o curso realmente a inspira. Existe um conflito entre estes apegos e uma imensa vontade de experimentar a vida.

Vale destacar a beleza do recurso gráfico de órgãos amassados que é utilizado pra representar, literalmente, esses “apertos” emocionais da protagonista. 

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A autora parece conferir um tom mais sério quando insere na narrativa diálogos e momentos emocionalmente difíceis retratados em páginas mais leves, onde temos grandes áreas brancas e um traço menos carregado.

Isso ocorre mais de uma vez ao retratar o seu relacionamento com o namorado Bruno, ou nas conversas que tem com o pai acerca de seu futuro. Cynthia não quer ser médica e parece passar boa parte da HQ tentando se convencer do contrário.

Curiosamente, esses momentos de ações-contemplativas se passam sempre fora do ambiente universitário.
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Ao longo da narrativa, acompanhamos as frustrações de Cynthia com o curso por meio de pequenos relatos sobre suas práticas na faculdade, como o nojo de encostar em pessoas, ou medo de interações sociais com pacientes que sofrem algum tipo de distúrbio. Apesar disso, a HQ intercala momentos em que a protagonista se mostra bastante empática com os pacientes, se empenhando para ajudá-los até mesmo nos pequenos detalhes em que o pode fazer.

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Além de bem humorada, o que é uma forma bastante eficaz de trabalhar com sentimentos tão pesados, a HQ traz algumas informações bem interessantes de medicina – e outras um tanto quanto nojentas – de forma orgânica na narrativa.

Em síntese, Estudante de Medicina é uma história sobre os prazeres, dilemas e sofrimentos que enfrentamos na construção de caminhos próprios. Cynthia o faz tanto através da faculdade quanto através dos quadrinhos, e essa HQ é ao mesmo tempo o processo e resultado de suas escolhas.


Sobre a autora:
Roberta Mandelli é mestra em Design, trabalha como pesquisadora e designer freelancer e adora escrever poesias.

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