Resenha: Faith

Sinopse: Faith Herbert sempre quis ser uma super-heroína, como as dos seus gibis favoritos. E quando seus poderes psiônicos surgiram e ela entrou para os Renegados da Fundação Harbinger, finalmente teve sua chance. Mas, agora, está vendo se consegue fazer sua carreira solo de defensora da justiça, com identidade secreta e tudo mais. De dia, é uma pacata blogueira que escreve sobre cultura pop — mas à noite, é a principal super-heroína de Los Angeles, a adorada Zephyr! E quando outros jovens psiônicos começam a desaparecer na Cidade dos Anjos sem deixar vestígios, é justamente ela que vai investigar o que está realmente acontecendo.

Lançada pela editora Jambô, esse volume da história de Faith contém suas quatro primeiras edições. Através de uma narração em primeira pessoa, somos inseridos em um recorte temporal da história da Faith Herbert. Descobrimos que no passado ela pertencia a um grupo de super-heróis chamados Renegados, mas que ela se afastou do grupo, terminando também seu relacionamento com um dos integrantes.

E aqui a história já ganha pontos por conferir o protagonismo a uma mulher que é super-heroína e que luta contra o crime de forma independente. Sem ser ofuscada ou precisar ser salva por um membro do sexo oposto, Faith se apresenta como uma mulher forte, sensível e madura.

Sabemos que a protagonista possui super-poderes psiônicos*, mas a HQ não revela a origem destes (ou dos outros super-heróis da trama). Também não entendemos exatamente o porquê ela saí do grupo e inicia uma carreira solo. É importante mencionar que essa falta de informação não atrapalha a narrativa e inclusive consegue deixar @s leitores curios@s em relação ao conteúdo e revelações que as próximas edições podem trazer.

Apesar de inovar ao inserir uma protagonista que além de mulher, é gorda – o que quebra com o padrão homens-musculosos-salvando-suas-namoradas-magras-e-também-o-dia – Faith se utiliza de uma grande quantidade de clichês dos quadrinhos. Temos a dupla identidade da protagonista que assume uma vida paralela como funcionária na redação de um site (super-heróis e jornalismo, lembra algo?), além de uma trama que gira em torno de vilões de outra espécie que buscam vingança pela atrocidades que a humanidade cometeu contra eles (nada de novo sob o sol).

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Não que os clichés sejam por si só um problema – as possibilidades narrativas são infinitas – mas a trama de Faith (escrita por Jody Houser) acaba sendo um pouco sem sal. Os quadrinhos, entretanto, ganham o leitor no tom bondoso e esforçado da protagonista, que confere uma leveza até mesmo nas situações mais perigosas que enfrenta.

Essa leveza conversa com uma das mensagens da HQ sobre o papel que as histórias de super-heróis desempenham na vida de crianças, mas torna a narrativa bastante desinteressante em momentos de tensão e conflito, que nunca realmente parecem ser de tensão ou conflito. Em momento algum ficamos apreensivos, uma vez que sabemos desde o início que tudo vai ficar bem e que não haverão muitos esforços ou sacrifícios para tal.

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Alguns personagens – apesar de não terem sido muito desenvolvidos nesse primeiro volume – possuem um grande potencial para serem explorados em histórias futuras. O Torque (ex-namorado da protagonista) que abandona a vida de super-herói para se dedicar a um reality show parece – pelo menos na narração de Faith – ser mais profundo que as cenas em que aparece passando protetor solar nas costas da sua belíssima nova namorada.

Somos também apresentados ao Archer (amigo-crush novo de Faith) que também parece ser um caso que promete desenvolvimento em futuras histórias. Porém, o fato de ficarmos mais interessados no possível romance entre ele e a super-heroína do que nos arcos de ação depõe contra a construção dos mesmos.

Outros personagens, como @X (codinome), ou os colegas de trabalho de Faith – que configuram em coadjuvantes que ajudam a compor os cenários pelos quais a protagonista circula e a auxiliar resoluções em momentos específicos da trama – poderiam muito bem ser substituídos em qualquer momento sem mudar em nada a história ou causar qualquer impacto emocional no leitor.  

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É importante mencionar que o traço dos quadrinhos é bastante detalhista e muito bonito, sendo facilmente reconhecido como pertencente a um estilo clássico de histórias de super-herói.

A Faith é desenhada de forma maravilhosa nos seus mais diversos ângulos. O fato dela ser gorda não toma protagonismo em nenhum momento no roteiro, mas a estética passa a mensagem por si só, principalmente em um universo tomado por corpos “perfeitos” e em uma sociedade onde a gordofobia é uma realidade. Super-heróis podem – e devem – ser retratados de uma forma inclusiva.

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Ainda sobre as qualidades gráficas, o esmero técnico que Francis Portela e Marguerite Sauvage conferem a HQ se reflete, além dos desenhos, na suas escolhas de cores. As roupas azuis e brancas compõem com seu longo cabelo loiro e conferem a Faith um tom angelical. Não é a toa que seu nome em português significa , sendo esta o principal referencial de propósito e valor atribuído à super-heroína e suas ações.

Na maior parte da história os tons utilizados conferem uma perspectiva bastante real aos quadros, como se alguém estivesse fotografando uma cena cotidiana sem adicionar filtros. Quando retratam as ações dos vilões, as páginas ganham uma textura granulada característica, além de uma saturação que puxa para cores específicas, como se um leve filtro colorido fosse adicionado à história. Temos ainda as cenas noturnas ao ar livre, que ganham uma tonalidade de azul que retrata perfeitamente o contexto e sua sensação.

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Um dos pontos mais divertidos da trama é acompanhar os devaneios da protagonista que – retratados com contornos menos marcados e uma coloração mais pastel – apresentam sempre alguma imagem da mesma salvando o dia e, oportunamente, um loiro musculoso.

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As referências em Faith são muitas, seja de clássicos do cinema a seriados contemporâneos, somos apresentados a diversos gostos da protagonista, que ora são inseridos de forma orgânica da narrativa, ora parecem quebrar a fluidez dos quadros ao quererem chamar atenção para si mesmos.

Em síntese, Faith é uma história que retoma os valores clássicos dos super-heróis, mas o faz por meio de uma protagonista autêntica. O fato de termos uma referência feminina inclusiva no universo dos HQs clássicos é motivo de celebração.

* Psiônica é o estudo ou prática do uso da mente para produzir fenômeno paranormal. Exemplos disso incluem empatia, telepatia, telecinese, etc. (Wikipedia)


Sobre a autora:
Roberta Mandelli é mestra em Design, trabalha como pesquisadora e designer freelancer e adora escrever poesias.

 

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