Resenha: Black Hole

Sinopse: Black Hole se passa nos arredores de Seattle, extremo noroeste dos Estados Unidos, em meados da década de 1970, quando uma praga inominável e traiçoeira se alastra entre os adolescentes locais através do contato sexual e parece não poupar ninguém. Ela se manifesta de maneira diferente em cada um dos infectados — enquanto alguns apresentam apenas manchas na pele, algo sutil e fácil de ocultar, outros se transformam em grotescas aberrações, vagas lembranças do que foram um dia. E uma vez que você foi contaminado, não há mais volta. Para estes seres monstruosos, não há alternativa além do auto-exílio em acampamentos precários, na floresta que circunda a região.

Originalmente, Black Hole foi publicada em doze edições pela Kitchen Sink Press e pela Fantagraphics entre 1993 e 2004. Em 2005, foi lançada em volume único pela Pantheon. A partir daí a HQ venceu uma quantidade significativa de prêmios –  Eisner Award de Melhor Álbum em 2006 + nove Harvey Awards + dois Ignatz Awards + o prêmio Les Essentiels d’Angoulême, em 2007 e agora a editora DarkSide fez jus a importância de obra de Charles Burns ao trazê-la novamente em uma belíssima edição de capa dura.

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Black Hole é uma história ambientada em Seattle (EUA), nos anos 70. O recorte temporal é retratado em diversos elementos, desde o corte de cabelo dos personagens e referências ao ínicio do sucesso de David Bowie, até artefatos como telefones fixos e anuários escolares.

Aliás, se Black Hole se passasse nos dias de hoje, certamente as fotos do anuário escolar que compõe a capa e a contra-capa da HQ seriam substituídas por feeds do Instagram (é interessante pensar nas implicações que essas novas tecnologias teriam na maneira como a história é contada).

Na parte de interna da capa temos os retratos de vários jovens saudáveis, enquanto a contra-capa revela os mesmos jovens depois de terem sido contaminados por uma doença sexualmente transmissível e sofrido bizarras mutações em suas feições.

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A trama de Black Hole gira em torno dessa praga e do seu impacto da vida de adolescentes. Quanto contaminados, o único futuro possível para esses jovens parece ser o da exclusão social. Ao longo da história podemos perceber que quanto mais inadequados socialmente são as vítimas da doença, mais graves são as manifestações físicas da mesma e consequentemente, maior é o nível de repulsa e de isolamento que essas pessoas sofrem.

Apesar de se passar nos anos 70, podemos traçar paralelos entre o lançamento de Black Hole (1993) e contexto histórico da época. É bastante plausível que a doença que protagoniza a narração seja uma metáfora para AIDS e a segregação social ocasionada pela mesma. Não é a toa que as cenas de sexo são tomadas por uma aura não apenas de luxúria, mas de um desejo que também é sombrio e incontrolável. A maneira como as metáforas e simbolismos construídas pelo autor conseguem conferir à realidade um tom absolutamente aterrorizante – ou evidenciar seus horrores socialmente naturalizados – merece destaque.

Outra interpretação possível – e que talvez seja complementar a do parágrafo anterior – é de que as mutações sofridas pelos jovens sejam uma metáfora para a avalanche de mudanças emocionais, hormonais e físicas que enfrentamos na adolescência.

Keith e Chris são os protagonistas da história, mas temos em seus interesses românticos outros dois personagens que compõe os arcos dramáticos da narrativa: a Elisa e o Rob. Embora expressiva e igualmente perturbadora, a forma como a doença se manifesta nesses quatro personagens não é tão agressiva visualmente, ou melhor dizendo, seus sintomas podem ser escondidos. Isso garante aos mesmos uma interação menos traumática com as pessoas não infectadas. Enquanto alguns personagens resolvem se isolar da sociedade, outros, como Rob, vivem um vida dupla entre os “bichados” e os saudáveis.

Apesar de – novidade – retratar uma sociedade machista, é importante evidenciar que as personagens femininas de Black Hole são extremamente bem construídas, tendo todas as nuances as quais se esperaria que tivessem e não sendo reduzidas ou apagadas pelos homens da história (apesar de serem agredidas por estes, e infelizmente aqui também não temos nenhuma novidade).

No primeiro capítulo “uma introdução à biologia” somos apresentados ao universo de Black Hole através de um arco confuso, cheio de mistérios sombrios que misturam realidade e sonho (inconsciente).

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Logo nas primeiras páginas, o autor brinca com a percepção de tempo, ao inserir uma espécie de “premonição deja-vú” que, explícita na fala de Keith, nos apresenta uma lógica temporal fragmentada. Keith descobre sobre a doença de Chris antes dela ser contaminada, em uma passagem que contém diversos simbolismos e elementos que serão apresentados e explanados (não de forma direta) mais tarde na narrativa.

As diversas fendas que aparecem na história – seja no sapo, seja no pé ou nas costas de Chris – podem ser facilmente vistas como um símbolo do órgão reprodutor feminino. Da mesma forma que as serpentes presentes nos delírios de Keith são evidentemente fálicas.

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Como todo retrato fiel da juventude, álcool e drogas estão bastante presentes na história. Burns se utiliza desses elementos, bem como dos sonhos dos personagens, para explorar os limites entre o real e o imaginário.

Em certo momento da história, os delírios de um personagem que usou LSD se misturam à horrores reais da trama, e os contornos traçados entre metáfora e realidade se borram. Aliás, a sensação é essa na HQ inteira, e este é um resultado que parece exigir um equilíbrio bastante preciso. Daí vem a genialidade do Burns nessa obra.

É como se o autor pegasse a percepção e a emoção de seus personagens, adicionasse um pouco de pessimismo existencial e aumentasse o volume até o máximo. O resultado é Black Hole.

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Com um traço cartunesco e realista, os personagens desenhados por Burns são extremamente expressivos. O autor discorre sobre isso em uma entrevista concedida à Vulture (traduzida pela Estação Nerd):  

“Provavelmente tem uma aparência menos cartunesca. Eu não estava buscando realismo propriamente dito, mas estava tentando ir mais a fundo nos personagens, ou em focar muito mais neles em vez de em uma ideia. Muito do meu trabalho anterior tinha mais a ver com o enredo e não tanto com o mundo interior dos personagens. Acho que esse foi meu foco: me concentrar nisso.”

O autor utiliza o preto e o branco com maestria. O jogo de sombra e luz que compõe com seus desenhos não é apenas belíssimo, é igualmente sufocante. Burns não deixa espaços vazios. Nas suas composições o branco preenche tanto quanto o preto (um paralelo com as obras de M. C. Escher poderia ser feito, bem como um reflexão sobre vazio, o inconsciente e a psicanálise, mas eu não saberia fazê-lo bem, então deixo aqui a provocação). Não temos respiro nem nos quadros e nem nas páginas, o que confere a HQ um atmosfera tensa, angustiante e desconfortável do começo ao fim. Como um verdadeiro buraco negro.

Black Hole é descrita como uma HQ de terror, e de fato, elementos sinistros perpassam todos os momentos da trama. Mas a verdade é que a história soa mais como um romance, uma vez que todos os seus arco dramáticos passam por frustrações e descobertas emocionais dessa natureza. O próprio Burns confirmou essa percepção na entrevista citada anteriormente:

“Penso em Black Hole mais como um romance em quadrinhos do que de horror. É assim que eu vejo.”

A história retrata paixões e obsessões adolescentes, e não é uma surpresa que os termos se confundam em diversos momentos, nem que os terrores da história contemplem esse borrão. Acredito que ao lermos a HQ com essa perspectiva, as interpretações que podem ser feitas ganham novos contornos.

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A salvação que os personagem buscam é de ordem emocional, e, na HQ, ela só parece se dar através do amor (assim como a perdição). O que pode ser interpretado como sendo bastante problemático, mas também bastante juvenil e, afinal, Black Hole é uma história sobre a adolescência.

Ainda bem que Burns não nos poupa dos detalhes.

 


Sobre a autora:
Roberta Mandelli é mestra em Design, trabalha como pesquisadora e designer freelancer e adora escrever poesias.

 

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1 comentário

  1. Comprei Black Hole na adolescência e muitos dos simbolismos presentes na história passaram despercebidos. Depois que li essa resenha (ótima, por sinal), foi interessante revisitar a obra todo esse tempo depois e compreender melhor aquilo que se esconde tanto nos desenhos, quanto nas palavras.

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